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Entre siglas e partidos

Kassab então enfim conseguiu oficializar a criação de seu partido, o PSD. O vigésimo oitavo partido brasileiro será de “centro”. O prefeito de São Paulo que outrora fazia parte do DEM, de “direita”, agora acena com a possibilidade de se aliar com qualquer um – ouvi alguém espirrar PMDB? Se esse último aí já não estivesse tão lotado de caciques e a concorrência paulista fosse tão grande – além de ter que lidar com a ameaça de perder o mandato e outros poréns do direito eleitoral -, Kassab provavelmente teria ido mesmo ao PMDB. Gilbertinho representa o que há de mais tosco nos nossos políticos: a necessidade de ter cada vez mais poder e nunca largá-lo (em qualquer partido é assim, não me engano). Mas sem projeto, sem definições ideológicas (ainda existem?), apenas a grande permanência no domínio da máquina. São Paulo tornou-se uma cidade melhor com sua gestão? Não. E não consigo enxergar nenhuma força de representação popular nesse protótipo de prefeito.

Se bem que o caso de Belo Horizonte talvez seja mais emblemático e ainda mais horrendo. Márcio Lacerda subiu ao poder com a aliança nada tácita entre PT (sob a tutela de Fernando Pimentel) e PSDB (nesse caso, Aécio Neves) para que o prefeito do PSB conseguisse se projetar. Definição de ojeriza encaixa nesse acordo de compadres que, com isso, evitaram um outro péssimo candidato (do PMDB) conseguisse se eleger. Hoje, esse mesmo Lacerda mantém boas relações com o governador de Minas Gerais, Antônio Anastasia (sim, o que se auto-vangloria pelo choque de gestão que congelou os salários dos professores à vergonha nacional), do PSDB, e provavelmente organizam juntos a divisão do controle da mídia estadual. Lacerda é autoritário e péssimo gestor. Não respeita o direito dos cidadãos de se organizarem em movimentos reivindicatórios, libera contratos da prefeitura para a empresa do filho e tem conseguido fazer com que trânsito da capital mineira pareça ser dez vezes pior que o de São Paulo (deu pra ter ideia?). Partido Socialista Brasileiro que tem um prefeito empresário, coisas que a gente vê no nosso país.

Coitado de mim, mineiro morador de São Paulo, que fico entre os dois estados sempre que posso. Ainda espero que Dilma não se coloque do lado desse protótipo de político paulista. É óbvio que Kassab ao se colocar no “centro” busca estabelecer novas alianças e uma aproximação do governo federal – vou passar a ler centro como “apoio a quem der mais ou estiver no poder”. O PT já tem quase uma década de perdas no sentido ideológico, de definição de sua própria identidade. A aliança com o PMDB foi um golpe (dizem que necessário, talvez…) muito forte no estômago de quem acreditava em uma política diferente. Não tenho o mesmo fervor ao defender o Partido dos Trabalhadores, uma ponta de decepção ainda grita no orgulho de ter visto Lula subir ao poder, tirar milhões da pobreza e adotar uma política externa assertiva e condizente com a grandeza no nosso país. Dilma como a primeira mulher no poder tem me parecido mais séria que seu antecessor, e ganhou muito apreço por não permitir que Jobim, por exemplo, lhe faltasse com o devido respeito – e ainda colocou o excelente Celso Amorim em seu lugar.

Tenho receio da possibilidade de descolamento de identidade do PT com a presidente. Ela nunca foi muito forte mesmo, mas as ligações com o PMDB, a presença de Temer e a volta dos que não foram (como Dirceu e companhia) nos bastidores é preocupante. Que representam afinal, os partidos brasileiros?

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10 anos do 11 de Setembro

Compilando alguns comentários sobre o 11 de Setembro que postei no Facebook em conversa com amigos interessados no tema (quem sabe não me servem de inspiração para algo maior à frente? afinal, meu TCC, artigos publicados e futura dissertação são baseados na política externa dos EUA especialmente depois do 11/09):

“impressionante como uma “ameaça” de terrorismo muda toda a rotina de uma cidade. NY escolheu trocar liberdade por segurança, essa neurose que é transmitida pela TV e pelas notícias na internet parecem um mundo orwelliano – câmeras e revistas por todos os lugares e o “perigo” constante da “ameaça” exterior…”

“esse negócio de cores relacionadas à possibilidade de ameaça foi uma das ideias mais “geniais” no sentido de aumentar a neurose. é de fácil entendimento, resgata rapidamente o medo relacionado a eventos passados e deixa todo mundo esperando um pronunciamento horroroso. haja remédio pra ansiedade.”

“acho que tanto o ponto de Orwell em 1984 quanto do 11 de Setembro são ameaças construídas sem parar, na mídia o tempo todo, que “bombardeiam” o cidadão constantemente. a “ameaça” terrorista é muito menor e menos provável do que se possa acreditar ou dizer, simplesmente por que se um atentado ocorrer nos EUA da forma como foi no 11 de Setembro, será mais um evento que terá acontecido independente de qualquer risco que possa colocar. quando os EUA falam de uma “guerra ao terror”, o inimigo não existe de fato, ele é construído de acordo com o contexto, com as circunstâncias, da mesma forma que o inimigo em 1984 – ora a Lestásia, ora a Eurásia, ninguém sabe ao certo. Tanto Bin Laden quanto Kadafi quanto Saddam já foram “aliados” e se tornaram “inimigos” e “ameaças”, portanto, perigo real existe – está em qualquer lugar a qualquer momento, e nem por isso a neurose nos assombra nesses mesmos momentos e lugares -, mas a “realidade perigosa” de que tratam os EUA, nesse caso, é muito mais uma construção que algo determinado e fixo.”

“não é teoria da conspiração. não disse que o 11 de setembro não existiu nem que algo foi forjado. não há como fazer pesquisas sérias levando em conta apenas suposições conspiratórias – não entro no mérito delas. o que levo em conta é que a construção da realidade e das “ameaças” é algo muito mais sutil e que envolve interesses maiores que apenas a dita “segurança nacional” – outro termo recorrente no assunto que volta e outra assume conotações de acordo com o contexto.”

“como disse Orwell: “guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força”. quando os americanos apoiaram bush na sua “guerra ao terror”, abriram mão da liberdade para ter maior segurança, preferiram a guerra a fim de atingir a paz e ignoraram questões constitucionais para dar maior força ao presidente pelo ato patriota e outros organismos governamentais. orweel nunca esteve tão presente, hehe…”

“autodefesa em relação a quem? o afeganistão e o iraque foram responsáveis pelos ataques? algum outro Estado? ou foi uma dita organização terrorista, um ator transnacional? se for, por que não houve um julgamento, não se levou o tema aos fóruns adequados e acatou-se o que foi decidido – se algo foi de fato? não existe um “terror” para quem se declara guerra, o que é o terror? um instituto, um grupo, vários grupos, um Estado ou vários Estados? quem define o que é terrorismo ou não, e se isso existir, quem faz cumprir decisões contra o que é determinado como tal? agressão pesada, será? o que a turquia fez contra os armênios e faz contra os curdos; os israelenses fazem contra os palestinos; China, Rússia e outros fazem contra grupos menores, etc, etc, etc (sem contar que os EUA foram o único país do mundo a ser condenado por terrorismo estatal quando do apoio a grupos na Nicarágua e ataques aéreos verdadeiramente agressores e pesados) – enfim, por que não se faz nada? por que eles tem o poder de invadir um país chamado de “falido” e “patrocinador” do terrorismo eles PODEM fazê-lo? autodefesa não seria a construção de um mundo mais seguro pelo aumento do comércio e ajuda a países pobres para que todos tenham de fato oportunidades de ver que o que os EUA defendem pode ser algo a ser copiado (o que eles chamam de democracia, liberdade, etc.) como já foi feito por exemplo em relação à França Revolucionária? discordo das invasões nesse sentido, ninguém pode falar como governar um país, qual regime é melhor e quais ideias são superiores – isso, além de tudo, é etnocentrismo.”

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O preconceito e os limites da democracia

Sabe o que é triste? A coação da opinião. Parece que pelo puro e simples direito de poder expressar o que se tem direito, não se pode mais criticar ou contra-argumentar. Daí, taxam-se adjetivos pejorativos, julgamentos prévios e comentários raivosos.

Ora, a livre expressão não inclui a discordância, a crítica e o descontentamento? Especialmente quando se trata de comentários racistas e homofóbicos, como pelo sr. deputado Jair Bolsonaro, quem cala consente. Dizer que como deputado ele tem DIREITO de se expressar não é negado, o conteúdo da sua mensagem que é deplorável. Defender a família, a moral e os bons costumes é um discurso antigo e que esse dinossauro da ditadura tenta retomar num momento em que deveríamos olhar para temas de vanguarda, sermos verdadeiros progressistas. Mas ainda assim, esse discurso da valorização da família, da “defesa” da pátria, etc, ainda é válido – não fere ninguém, não atinge ninguém.

No entanto, e exatamente por que nosso país é livre e democraticamente constituído, esse senhor não pode achar que está novamente num regime militar e desferir esse tipo de comentário. Digno de fascistas do começo do século passado, sua atitude é mais um capítulo de como os parlamentares brasileiros tem poderes demais. Não apenas o poder material extremamente exagerado, mas um poder simbólico que se traduz pelas relações de poder que um discurso carrega. Bolsonaro pode falar “o que quiser” e não ter que responder por isso, seu mandato lhe dá prerrogativas especiais que os pobres mortais pagadores de impostos não tem. Em parte justificáveis, no entanto, racismo é crime e homofobia atenta contra a dignidade da pessoa humana e isso não pode ser passível de atenuante pela sua condição de deputado.

Por isso, não aceito que me digam pra calar ou aceitar as implicações jurídicas de sua eleição. A nossa Constituição impõe limites, até para os representantes no Congresso. E já passou da hora de deixarmos esse positivismo exagerado de lado e colocar os verdadeiros interesses nacionais (como o caso da Ficha Limpa) em pauta, sob um olhar mais crítico das necessidades da própria democracia e mais sensível às demandas da população.

Os indivíduos que votaram em Jair Bolsonaro provavelmente gostam de seus comentários e compartilham de suas posições ideológicas. Eles tem o direito para tanto. E ninguém deve pensar em retirar isso deles, democracia – para o bem ou para o mal – é isso, são as regras do jogo. Todo país tem que saber lidar com essas minorias (imagino e espero) retrógradas e atrasadas. Mas não irei aceitar calado, por que apesar do deputado não ter o direito de usar de suas prerrogativas para alimentar preconceitos, eu (e qualquer outro cidadão) tenho o direito de acusá-lo e rebatê-lo.

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Pensamos, enfim, existimos?

Antes de ler o restante do post é recomendável que se veja o vídeo acima postado. Trata-se da entrevista feita pelo “intelectual” Jô Soares com o Prof. Dr. Reginaldo Nasser – reconhecido pesquisador das Relações Internacionais no Brasil. Para começar, não consigo chamar aquilo de entrevista. Afinal, como já é costume do sr. Jô Soares levantar monólogos, os convidados ficam a mercê da sorte de conseguir expressar umas poucas frases no decurso do já breve programa. O que poderia ser uma verdadeira discussão em torno de questões importantes da atual política internacional torna-se um palco de bizarrices em que uma atriz entra na conversa com a pergunta de por que fazer a guerra contra a guerra? Ora, minha cara e bela conterrânea mineira Isis Valverde, vamos deixar de lado a ingenuidade leviana dos leigos e nos recolher à nossa mediocridade quando não soubermos comentar algo com o mínimo de respeito. Isso por que o dr. Reginaldo (e o chamo assim por que ele de fato sustenta o título, ao contrário dos adEvogados e mediquitos) não faz seus comentários sem uma base teórica e analítica muito bem sustentada, logo, não é obrigado a responder esse tipo de “reflexão” que mais parece uma “viagem” de Woodstock.

Não bastasse o entrevistador global interromper o professor Reginaldo a cada instante em que construía seu argumento, ainda se mostrava extremamente despreparado para uma conversa mais profunda em relação ao tema que propôs para debate. Decorar datas e informações soltas não é privilégio de ninguém (qualquer um que se prepara para o vestibular ou um concurso passa pelo mesmo processo, mas isso não significa adquirir conhecimento), mas usar desse tipo de “atributo” só faz soar ainda pior o nível intelectual do interlocutor – digo, aos que compreendem minimamente a diferença entre a análise e a exposição dos fatos.

Essa “entrevista” atentou também a nós, que temos gosto pelo estudo das Relações Internacionais. O nosso papel enquanto alunos, pesquisadores e entusiastas é calar-nos para o grande público e manter as discussões apenas nos círculos acadêmicos? Discordo, entendo o papel do analista internacional (ou internacionalista) como de extrema importância para fazer exatamente o contrário: levar a informação àqueles que não são da área propriamente dita. Se imaginamos o Brasil como uma verdadeira potência, e isso inclui um maior papel do país no cenário internacional, então devemos dar mais valor à nossa profissão, ao nosso estudo, à nossa prática diária.

O simples fato de ter recebido o convite para dissertar sobre a situação na Líbia já demonstra quanto o prof. Reginaldo é conhecido e reconhecido. Uma pena que Jô Soares não tenha tirado bom proveito do intelectual que estava sentado ao seu lado para esclarecer questões pertinentes que provavelmente interessam a muitos dos que o assistiam.

Pensamos, escrevemos e produzimos. Mas já existimos?

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