Pensamos, enfim, existimos?

Antes de ler o restante do post é recomendável que se veja o vídeo acima postado. Trata-se da entrevista feita pelo “intelectual” Jô Soares com o Prof. Dr. Reginaldo Nasser – reconhecido pesquisador das Relações Internacionais no Brasil. Para começar, não consigo chamar aquilo de entrevista. Afinal, como já é costume do sr. Jô Soares levantar monólogos, os convidados ficam a mercê da sorte de conseguir expressar umas poucas frases no decurso do já breve programa. O que poderia ser uma verdadeira discussão em torno de questões importantes da atual política internacional torna-se um palco de bizarrices em que uma atriz entra na conversa com a pergunta de por que fazer a guerra contra a guerra? Ora, minha cara e bela conterrânea mineira Isis Valverde, vamos deixar de lado a ingenuidade leviana dos leigos e nos recolher à nossa mediocridade quando não soubermos comentar algo com o mínimo de respeito. Isso por que o dr. Reginaldo (e o chamo assim por que ele de fato sustenta o título, ao contrário dos adEvogados e mediquitos) não faz seus comentários sem uma base teórica e analítica muito bem sustentada, logo, não é obrigado a responder esse tipo de “reflexão” que mais parece uma “viagem” de Woodstock.

Não bastasse o entrevistador global interromper o professor Reginaldo a cada instante em que construía seu argumento, ainda se mostrava extremamente despreparado para uma conversa mais profunda em relação ao tema que propôs para debate. Decorar datas e informações soltas não é privilégio de ninguém (qualquer um que se prepara para o vestibular ou um concurso passa pelo mesmo processo, mas isso não significa adquirir conhecimento), mas usar desse tipo de “atributo” só faz soar ainda pior o nível intelectual do interlocutor – digo, aos que compreendem minimamente a diferença entre a análise e a exposição dos fatos.

Essa “entrevista” atentou também a nós, que temos gosto pelo estudo das Relações Internacionais. O nosso papel enquanto alunos, pesquisadores e entusiastas é calar-nos para o grande público e manter as discussões apenas nos círculos acadêmicos? Discordo, entendo o papel do analista internacional (ou internacionalista) como de extrema importância para fazer exatamente o contrário: levar a informação àqueles que não são da área propriamente dita. Se imaginamos o Brasil como uma verdadeira potência, e isso inclui um maior papel do país no cenário internacional, então devemos dar mais valor à nossa profissão, ao nosso estudo, à nossa prática diária.

O simples fato de ter recebido o convite para dissertar sobre a situação na Líbia já demonstra quanto o prof. Reginaldo é conhecido e reconhecido. Uma pena que Jô Soares não tenha tirado bom proveito do intelectual que estava sentado ao seu lado para esclarecer questões pertinentes que provavelmente interessam a muitos dos que o assistiam.

Pensamos, escrevemos e produzimos. Mas já existimos?

About these ads

3 Comentários

Arquivado em Brasil, Política, Teorias

3 Respostas para “Pensamos, enfim, existimos?

  1. Celso

    Ele foi muito paciente e educado com a Isis. Acho que eu não ia aguentar e faria a linha Chandler Bing, com certeza.
    Mas, sério, Jô desperdiçou uma grande fonte. Pena!

  2. Thalyta

    Ei! To aqui sem sono lendo seu blog. É bom de ler (eu pulo os posts de futebol. sorry!) e tenho algo pra falar.
    Lembro quando pequena lá no norte, o Jô era um modelo de inteligência, um poço de sabedoria pra mim…#hunf.
    Primeiro, gostei muito do “…vamos deixar de lado a ingenuidade leviana dos leigos e nos recolher à nossa mediocridade…”. É pra vida isso, ne? Eu carrego p minha e a Isis perdeu a chance de mostrar a mineira que ali existe (pensando na máxima “come quieto”, descrita por você abaixo). rs
    Entendo sua decepção com o Jô e compartilho do seu apelo quanto à “democratização” do conhecimento das RIs. Mas acredito que isso também significa responder perguntas triviais, simples, leigas, muitas vezes ignorantes (no sentido de desprovidas de qualquer fundamentação), como as colocações da moça mineira, no intuito de, antes de qualquer julgamento, fazer com esse ser deixe a condição de leigo (leviano) ou, pelo menos, se sinta instigado a deixar. É difícil isso. Fugir da trivialidade, do senso comum, mesmo pra explicar uma coisa complexa, como bem sabemos (acho que nem sei o quanto). Veja se concorda com minha analogia: É como tentar explicar/mostrar a cultura (hábitos, comportamentos, regras sociais…) de um povo, de um país (do seu mesmo) numa conversa com um colega estrangeiro ou não, sem usar clichês e/ou algo simbólico que remeta à estereótipos. Na verdade, acho que é a forma de simplificar toda a complexidade das coisas e passar a informação adiante.
    Gênios aqueles que tiverem uma sábia estratégia de fazer o conhecimento perpetuar entre os leigos (como alguns de nossos queridos professores). Bem como o serão aqueles que decidirem por educar o povo. haha

    Um beijo delícia! Poste mais!
    Tha

    • L L

      Ei, Thá!

      Concordo com o que disse, é necessária uma democratização do conhecimento. A Isis foi apenas infeliz no seu comentário, podendo ter aprendido mais calada ou fazendo uma pergunta mais inteligente (preferiu filosofar e aí…). O problema maior foi o Jô mesmo, que paga de intelectual mas emite informações erradas ou sem valor enquanto não deixa seu convidado fazer as análises necessárias e devidamente cabíveis.

      Sempre gostei de conversar sobre as RIs com amigos e familiares, mostrar outros pontos de vista, explicar que nem tudo é como a mídia supõe ou mostra. E normalmente a prosa é boa, apesar de encontrar um ou outro que prefere se limitar a visões demasiadamente fechadas e críticas vazias. Bem, o mundo é assim, né?

      Beijos!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s