Arquivo do mês: março 2011

O preconceito e os limites da democracia

Sabe o que é triste? A coação da opinião. Parece que pelo puro e simples direito de poder expressar o que se tem direito, não se pode mais criticar ou contra-argumentar. Daí, taxam-se adjetivos pejorativos, julgamentos prévios e comentários raivosos.

Ora, a livre expressão não inclui a discordância, a crítica e o descontentamento? Especialmente quando se trata de comentários racistas e homofóbicos, como pelo sr. deputado Jair Bolsonaro, quem cala consente. Dizer que como deputado ele tem DIREITO de se expressar não é negado, o conteúdo da sua mensagem que é deplorável. Defender a família, a moral e os bons costumes é um discurso antigo e que esse dinossauro da ditadura tenta retomar num momento em que deveríamos olhar para temas de vanguarda, sermos verdadeiros progressistas. Mas ainda assim, esse discurso da valorização da família, da “defesa” da pátria, etc, ainda é válido – não fere ninguém, não atinge ninguém.

No entanto, e exatamente por que nosso país é livre e democraticamente constituído, esse senhor não pode achar que está novamente num regime militar e desferir esse tipo de comentário. Digno de fascistas do começo do século passado, sua atitude é mais um capítulo de como os parlamentares brasileiros tem poderes demais. Não apenas o poder material extremamente exagerado, mas um poder simbólico que se traduz pelas relações de poder que um discurso carrega. Bolsonaro pode falar “o que quiser” e não ter que responder por isso, seu mandato lhe dá prerrogativas especiais que os pobres mortais pagadores de impostos não tem. Em parte justificáveis, no entanto, racismo é crime e homofobia atenta contra a dignidade da pessoa humana e isso não pode ser passível de atenuante pela sua condição de deputado.

Por isso, não aceito que me digam pra calar ou aceitar as implicações jurídicas de sua eleição. A nossa Constituição impõe limites, até para os representantes no Congresso. E já passou da hora de deixarmos esse positivismo exagerado de lado e colocar os verdadeiros interesses nacionais (como o caso da Ficha Limpa) em pauta, sob um olhar mais crítico das necessidades da própria democracia e mais sensível às demandas da população.

Os indivíduos que votaram em Jair Bolsonaro provavelmente gostam de seus comentários e compartilham de suas posições ideológicas. Eles tem o direito para tanto. E ninguém deve pensar em retirar isso deles, democracia – para o bem ou para o mal – é isso, são as regras do jogo. Todo país tem que saber lidar com essas minorias (imagino e espero) retrógradas e atrasadas. Mas não irei aceitar calado, por que apesar do deputado não ter o direito de usar de suas prerrogativas para alimentar preconceitos, eu (e qualquer outro cidadão) tenho o direito de acusá-lo e rebatê-lo.

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Aleatório e divertido

Achei muita coincidência entrar no vagão do trem que homenageia justamente os mineiros. Obrigado, São Paulo! :P

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Pensamos, enfim, existimos?

Antes de ler o restante do post é recomendável que se veja o vídeo acima postado. Trata-se da entrevista feita pelo “intelectual” Jô Soares com o Prof. Dr. Reginaldo Nasser – reconhecido pesquisador das Relações Internacionais no Brasil. Para começar, não consigo chamar aquilo de entrevista. Afinal, como já é costume do sr. Jô Soares levantar monólogos, os convidados ficam a mercê da sorte de conseguir expressar umas poucas frases no decurso do já breve programa. O que poderia ser uma verdadeira discussão em torno de questões importantes da atual política internacional torna-se um palco de bizarrices em que uma atriz entra na conversa com a pergunta de por que fazer a guerra contra a guerra? Ora, minha cara e bela conterrânea mineira Isis Valverde, vamos deixar de lado a ingenuidade leviana dos leigos e nos recolher à nossa mediocridade quando não soubermos comentar algo com o mínimo de respeito. Isso por que o dr. Reginaldo (e o chamo assim por que ele de fato sustenta o título, ao contrário dos adEvogados e mediquitos) não faz seus comentários sem uma base teórica e analítica muito bem sustentada, logo, não é obrigado a responder esse tipo de “reflexão” que mais parece uma “viagem” de Woodstock.

Não bastasse o entrevistador global interromper o professor Reginaldo a cada instante em que construía seu argumento, ainda se mostrava extremamente despreparado para uma conversa mais profunda em relação ao tema que propôs para debate. Decorar datas e informações soltas não é privilégio de ninguém (qualquer um que se prepara para o vestibular ou um concurso passa pelo mesmo processo, mas isso não significa adquirir conhecimento), mas usar desse tipo de “atributo” só faz soar ainda pior o nível intelectual do interlocutor – digo, aos que compreendem minimamente a diferença entre a análise e a exposição dos fatos.

Essa “entrevista” atentou também a nós, que temos gosto pelo estudo das Relações Internacionais. O nosso papel enquanto alunos, pesquisadores e entusiastas é calar-nos para o grande público e manter as discussões apenas nos círculos acadêmicos? Discordo, entendo o papel do analista internacional (ou internacionalista) como de extrema importância para fazer exatamente o contrário: levar a informação àqueles que não são da área propriamente dita. Se imaginamos o Brasil como uma verdadeira potência, e isso inclui um maior papel do país no cenário internacional, então devemos dar mais valor à nossa profissão, ao nosso estudo, à nossa prática diária.

O simples fato de ter recebido o convite para dissertar sobre a situação na Líbia já demonstra quanto o prof. Reginaldo é conhecido e reconhecido. Uma pena que Jô Soares não tenha tirado bom proveito do intelectual que estava sentado ao seu lado para esclarecer questões pertinentes que provavelmente interessam a muitos dos que o assistiam.

Pensamos, escrevemos e produzimos. Mas já existimos?

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